Indústria rara no mundo instala-se em Santarém

Indústria rara no mundo instala-se em Santarém

Uma nova indústria prepara-se para chegar a Santarém, num investimento de 10,7 milhões de euros, que promete a criação de 66 postos de trabalho. Já está a ser erguida a primeira fábrica onde a start-up EntoGreen vai transformar desperdícios vegetais tanto em fertilizantes para os solos, como em proteína usada para a alimentação animal. Isto tudo num processo sustentável que conta com a ajuda de insetos para a transformação.

Estamos perante “a criação de um setor produtivo completamente novo assente em economia circular”, afirma Daniel Murta, CEO da EntoGreen, em declarações ao Negócios. O objetivo é converter, anualmente, 36.000 toneladas de subprodutos vegetais em 2.500 toneladas de proteína, 500 toneladas de óleo de inseto para a alimentação animal e 7.000 toneladas de fertilizante orgânico para os solos.

A mosca soldado-negro é a protagonista deste projeto. A EntoGreen vai receber desperdícios da agroindústria da região, que podem representar entre 1% e 3% da produção, dependendo da indústria. Um exemplo prático são cebolas greladas ou com algum tipo de nódoa, que os consumidores habitualmente põem de lado no supermercado, mas que têm uma qualidade nutricional elevada, e, do ponto de vista da segurança alimentar, estão boas para consumo, explica Daniel Murta. Este tipo de desperdícios são misturados pela EntoGreen e dados como alimento aos insetos, criados na fábrica. “Em 15 dias transformam (os resíduos) em fertilizante orgânico e temos larvas de grandes dimensões que, no seu conjunto, são proteína”, elabora o CEO. Depois, estas larvas serão processadas, “assegurando o bem-estar destes animais”, que são mortos de forma rápida. Assim, o desperdício é transformado em “produtos de elevado valor”.

O principal mercado da EntoGreen será a alimentação de peixe e animais de companhia. A start-up quer substituir a soja, que hoje pode representar até 90% da proteína presente nestas rações, pela proteína obtida através dos insetos. A empresa também já está a estudar, com parceiros, a hipótese de incluir farinha de inseto na alimentação de aves e suínos, um estudo que deve estar concluído no final do ano. Um terceiro produto que pode ser produzido nesta fábrica, além da proteína para as rações e do fertilizante, é o óleo de inseto, que tem potencial para ser usado em produtos tão diversos quanto tintas e cosméticos. “Ainda não fechámos contratos de fornecimento, mas temos perspetivas quer em Portugal quer no estrangeiro. Temos várias demonstrações de interesse nesta fase”, adianta Murta. A proteína para a ração de peixe deverá ser sobretudo exportada para o mercado europeu de aquacultura.

A unidade fabril, na zona industrial de Santarém, estará operacional em meados de 2022, criando 55 postos de trabalho diretos. A esta junta-se uma unidade de investigação e desenvolvimento (I&D), que gerará mais 11 postos de trabalho altamente qualificados. Esta unidade permitirá “assegurar que a tecnologia estará ao nível do estado da arte”, gerando uma melhoria contínua e crescente eficiência nos processos.

Segunda fábrica a caminho

A EntoGreen planeia já ter uma faturação suficiente em 2023 e 2024 para construir uma segunda unidade em Santarém, tirando partido de a procura por proteína de inseto ser “muito superior à oferta”, frisa o CEO. Daniel Murta aponta que existem cinco fábricas semelhantes em todo o mundo, e que, quando contactaram empresas internacionais de ração para peixe, tiveram o “feedback” de que o produto interessaria quando ganhasse mais escala, isto é, se a EntoGreen tivesse mais de 10 fábricas.

De acordo com um estudo do Rabobank, a procura por proteína de inseto, principalmente como ingrediente da ração animal, pode atingir meio milhão de toneladas métricas em 2030, quando hoje se situa nas 10.000 toneladas métricas.

Mas a EntoGreen não espera avançar sozinha, já que com capitais próprios “é difícil”, de acordo com o presidente executivo da empresa. “Vamos transferir tecnologia a terceiros que queiram construir em parceria”, o que será a base da expansão internacional, diz Murta. Para isso, a empresa terá a propriedade intelectual relativa a alguns equipamentos protegida, assim como partes-chave do processo.

Portugal 2020 dá um empurrão A EntoGreen nasceu às mãos de Daniel Murta e do sócio e responsável das operações, Rui Nunes. O primeiro formou-se em Medicina Veterinária e o segundo na área da Química Industrial. Juntos, formaram a Ingredient Odyssey e criaram a marca EntoGreen, depois de terem conseguido fundos do Portugal 2020 para o projeto de investigação, os quais permitiram desenvolver a solução que agora querem levar para Santarém. Daniel Murta e Rui Nunes mantêm-se os sócios maioritários da empresa mas, para criar a unidade industrial, abriram as portas a novos parceiros. Embora prefiram não adiantar as respetivas quotas, os responsáveis afirmam que este projeto também foi cofinanciado por fundos do Portugal 2020, além de ter o apoio do recém-criado Banco de Fomento e de fundos geridos pela empresa de capital de risco BlueCrow. O projeto conta, ainda, com a participação do Crédito Agrícola. “Consideramos que a nossa história é exemplo de como o Portugal 2020 pode funcionar bem”, avalia Daniel Murta.
O ambiente também lucra O CEO da EntoGreen garante que há um ganho ambiental à partida: o de reaproveitar o desperdício, ou seja, um total de 36.000 toneladas de resíduos vegetais que deixam de ser resíduos para passarem a ser reaproveitados no âmbito dos processos da EntoGreen. No caso dos fertilizantes da empresa, existe o benefício de melhorarem a qualidade do solo e promoverem uma maior resistência à seca e às alterações climáticas. A atividade microbiológica do solo também sai a ganhar, com um aumento dos seres vivos que nele habitam. Em ensaios, percebeu-se que estes fertilizantes aumentam em 16% a quantidade de batata produzida. No caso do tomate não houve aumento da produção, mas notaram-se melhorias na qualidade, em termos da maturação. No que toca às emissões de carbono, a empresa diz que ainda está a ser estudado o impacto dos seus processos ao longo do ciclo de vida dos produtos, mas já existe uma noção da escala da redução de emissões: são dezenas de milhares de toneladas de carbono evitadas.