Não devem ser as empresas a determinar o bem-estar global

Não devem ser as empresas a determinar o bem-estar global

Na opinião de Clara Raposo, não são os gestores nem os acionistas das empresas que determinam o que é o bem-estar social e ou bem-estar global do planeta. "É, de certa forma, perigoso passarmos essa responsabilidade para um conjunto de empresários e acionistas que vão decidir o que é o bem comum quando essa responsabilidade tem de ser mais centralizada nos Estados e na forma como definem os contornos de atuação destas entidades", afirmou na conferência digital Negócios Sustentabilidade, realizada na semana passada.

“As empresas vivem das pessoas e dos mercados”, afirmou Luís Urmal Carrasqueira, managing director da SAP. Isto obrigou as empresas tecnológicas a fazer compromissos com o futuro e com a sustentabilidade que são decisões de médio e longo prazo. “São decisões que estão a construir futuro”, refere Luís Urmal Carrasqueira. Acrescenta que hoje “nas análises de investimento de muitas entidades financeiras existe um fator que é o Environmental, Social, and Governance (ESG), ‘ratings’ sobre a atenção que as empresas dão a estes componentes”.

“As grandes empresas estão sujeitas a muito escrutínio seja destas entidades de ‘rating’ seja do próprio mercado na sua globalidade e dos seus acionistas. Hoje existe um outro grupo de interesse que tem vindo a crescer dentro das organizações para além dos colaboradores, dos clientes, dos acionistas, que é a sociedade”, adianta Luís Urmal Carrasqueira.

Diz ainda que hoje nos conselhos de administração a sustentabilidade ganha espaço, mas quando o “green line começar a ter mais amplitude, a ser mais comum e mais recorrente nos conselhos de administração para além do topline e bottom line, todos vamos dar grandes passos em frente”.

Subir a fasquia

Clara Raposo defende um enquadramento legal e regulamentar em vez da forma ad hoc como estas medidas de sustentabilidade podem ser implementadas. “Torna-se muito difícil a uma empresa e a uma equipa de gestão que sejam muito bem-intencionadas competirem no mercado com outras empresas que seguem as regras instituídas. Estas podem ser menos amigas do ambiente mas tornam-se mais competitivas em termos de concorrência porque têm menores custos de produção”. É preciso uma escolha coletiva “em que todos sobem a fasquia e todos jogam de acordo com as mesmas regras”, conclui Clara Raposo.

“A crise económica que esta pandemia veio gerar é uma oportunidade de reconstrução”, diz Afonso Arnaldo, partner & corporate Responsability & Sustainability da Deloitte. Explica que “já se perderam empregos e empresas e vai-se continuar a perder. É uma grande oportunidade para uma reconstrução mais sustentável”. Considera que os governantes têm um papel determinante para a sustentabilidade, embora haja países, como os Estados Unidos e a China em que sempre foi difícil fazer passar este tema. Por isso na sua opinião, as empresas são os principais agentes de mudança.

“Cada pessoa tem de contribuir para esta mudança nos seus consumos, mas é fortemente influenciada pelo que lhe é proposto no consumo. Por isso, as empresas são um agente fundamental nesta nova realidade”, sublinhou Afonso Arnaldo.