Modelos de risco têm de olhar para a frente

Modelos de risco têm de olhar para a frente

Em 2019, numa conferência do Climate Finance & Investment do Imperial College, com o apoio do Banco Mundial, conclui-se que para se chegar às metas de Paris em 2030 têm de se investir valores na ordem dos três a quatro biliões de dólares por ano em iniciativas para as mudanças climáticas e tem a ver com produtos novos, a mitigação. Neste momento está-se à volta de um bilião anualmente, o que está muito abaixo do estimado, por isso quando se investe menos o hiato aumenta. Segundo Francisco Veloso, diretor do Imperial College Business School, "a magnitude do problema é de facto extraordinária e conseguir alterar a situação para que se consiga chegar às metas de Paris, é um desafio grande para todos os agentes, desde os financeiros à academia, passando pelos cidadãos".

Um dos aspetos focados por Francisco Veloso relaciona-se com o sistema financeiro como parceiro da sustentabilidade e com os modelos financeiros de análise de risco.

“A maioria dos modelos de risco que existe no sistema financeiro olha para o passado, para o historial, para os dados. As alterações climáticas e as mudanças impostas pela sustentabilidade são essencialmente acontecimentos do futuro, portanto tem que haver uma alteração radical nos próprios modelos de avaliação do risco e em relação à forma como pensamos as decisões em termos financeiros, de projetos e de produtos no contexto e no sistema financeiro”, assinalou Francisco Veloso.

Olhar o futuro

Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium BCP, refere que se tomam muitas decisões com olhos postos no futuro ainda que com modelos em que o passado pesa muito, “mas temos a consciência de que temos de mudar”. Adianta que “a definição da matriz de risco para 2021 já será muito mais elaborada do ponto de vista de incorporação destes riscos do que foi 2020, onde já constavam com visibilidade para o setor”.

O diretor do Imperial College Business School considera que estas alterações significativas têm de envolver todos os agentes, tanto os financeiros como os reguladores e as entidades académicas, para desenvolver novas ferramentas de avaliação de risco, de produto e de investimento que não existem neste momento disponíveis no mercado, para que se consiga fazer essa transição de uma forma tão significativa.

“Nesta transição enquanto não houver modelos claramente aceites e estabelecidos, como há hoje em dia para navegar este tipo de investimentos, estamos num processo de tentativa e erro, e portanto, tem de haver um tipo de envolvimento e de diálogo que não tem existido até agora historicamente e que é também um desafio relacional e de funcionamento relativamente ao que tem sido a prática comum”, sublinhou Francisco Veloso.

João Wengorovius Meneses alerta que as empresas estão muito habituadas a conduzir a olhar para o retrovisor, a “não olhar para o futuro, estão muito pouco habituadas a ser disruptivas, estão mais habituadas a serem incrementais. A inovação precisa de ser mais audaz, mais disruptiva e precisa de ter maior escala”.