Lixo fertiliza campos e plano de 5 milhões

Lixo fertiliza campos e plano de 5 milhões

O grupo de empresas que se dedica a recolher as lamas das ETAR, para as tratar e fertilizar os terrenos agrícolas, tem um novo desafio: tratar o lixo orgânico, que a União Europeia quer que passe a ser separado nas casas dos portugueses até 2023. Para isso, estas empresas já estão a aumentar a sua capacidade – quase para o dobro – num investimento de 5 milhões.

“Alguma recolha terá de se iniciar rapidamente. Queremos crer que para o ano já haverá algum aumento desse tipo de resíduo a chegar às nossas instalações”, explica Ricardo Silva, o presidente da AEVO – Associação de Empresas de Valorização de Orgânicos. “O objetivo é dar resposta ao que nós acreditamos que seja um aumento muito grande, nos próximos dez anos, dos resíduos orgânicos com necessidade de tratamento”, diz.

Hoje em dia, mais de 80% dos resíduos que os associados da AEVO tratam vêm das ETAR – Estações de Tratamento de Águas Residuais, as chamadas lamas, embora também lidem com os detritos da indústria papeleira ou da agroindústria. Mas agora, o Governo quer criar uma rede de recolha dedicada para os chamados biorresíduos – em tudo semelhante às que existem para os plásticos, papel, e vidro – pois o país é obrigado a tê-la operacional até 2023, de forma a cumprir com as metas europeias. E alguém terá de tratar este lixo. É aqui que a AEVO quer entrar, com novos investimentos em compostagem, uma das técnicas que já é usada no tratamento de resíduos orgânicos.

“Os novos projetos são na sua grande maioria de reforço da capacidade de compostagem, mas também a abertura de novas plataformas no Norte do país”, afirma Ricardo Silva. À capacidade atual de 250 mil toneladas, vão-se acrescentar outras 200 mil. Sendo que parte destes projetos já iniciaram a construção, a previsão é que estejam “em pleno” até ao final do primeiro semestre de 2021.

A alternativa seria a deposição em aterro ou incineração, com custos muito superiores. Ricardo Silva
Presidente da AEVO

Outra das motivações para construir novas centrais de tratamento é que hoje em dia estas estão muito concentradas na zona centro, no Ribatejo. Isto acarreta custos económicos e ambientais, uma vez que há uma maior produção de lamas nos locais onde há mais população, e muitas têm de ser transportadas do Norte até ao Centro, só para serem tratadas. “Neste momento, está a sair um carro carregado numa ETAR em Caminha para que a lama seja tratada no Ribatejo. Estamos a falar de mais de 300 km de transporte”, ilustra Ricardo Silva. Com as novas centrais esperam-se poupanças significativas.

Todos ganham neste círculo

A missão da AEVO é recolher as lamas das ETAR, uma vez que estas últimas não têm capacidade para as armazenar, e, portanto, pagam para que sejam recolhidas e tratadas. Esta é uma saída mais barata e ecológica: “A alternativa seria a deposição em aterro ou incineração, com custos muito superiores”, refere Ricardo Silva.

Acreditamos num aumento muito grande, em dez anos, dos resíduos orgânicos para tratamento. Ricardo Silva
Presidente da AEVO

O setor dos gestores de resíduos fatura, anualmente, cerca de 30 milhões de euros, contando com menos de uma dezena de empresas – das quais mais de metade tem representação na AEVO. O presidente da associação é gestor também na Ferrovial, um dos três maiores membros.

Os associados recolhem as lamas em 120 concelhos para depois serem entregues gratuitamente em 40 concelhos, a centenas de agricultores. “Portugal tem grande necessidade de matéria orgânica nos seus solos”, assinala Ricardo Silva, portanto, caso a reutilização não acontecesse, “perdia-se uma riqueza importante”. E os agricultores também ganham. A título de exemplo, numa plantação de milho, a poupança com adubos pode atingir os 350 euros por hectare a cada ano, substituindo equivalentes químicos por uma alternativa mais natural. E se a este valor acrescentarmos os ganhos com o aumento de produção pela fertilização, as mais-valias para o agricultor chegam aos 500 euros anuais por hectare, assegura a AEVO.

Gestores apostam cada vez mais na compostagem pelas dificuldades na valorização direta. Ricardo Silva
Presidente da AEVO 

Esta tarefa é tão relevante que, quando em 2019 houve a greve dos motoristas de matérias perigosas, este foi um dos setores considerados prioritários, de forma a não parar.

A outra solução

Os gestores de resíduos estão “cada vez mais a apostar na compostagem pelas dificuldades associadas à valorização agrícola direta”, ressalva, Ricardo Silva. A valorização direta é uma alternativa mais barata e mais ecológica que a compostagem (valorização indireta), porque, uma vez que prevê que as lamas já saiam da ETAR em condições de serem aplicadas aos solos, estas são transportadas diretamente para os campos. Ou, no caso de serem necessários alguns ajustes, a lama passa por um processo mais simples, de higienização.

Este método “tem vindo a perder representatividade pelas dificuldades de licenciamento”, acusa Ricardo Silva. “Um plano que devia ser analisado em 35 dias, demora três ou mais anos”. Por outro lado, as ETAR podiam fazê-lo, mas transferiram a responsabilidade para o gestor de resíduos, dado que é um processo tecnicamente exigente, diz o presidente da AEVO. Ainda assim, esta é uma parte importante da atividade do setor. “Não existe para já, na compostagem, uma resposta para totalidade das lamas que são produzidas. Terá sempre de passar pela valorização agrícola direta”, conclui.Os Números do Negócio

200Toneladas
Os projetos da AEVO vão acrescentar uma capacidade de 200 mil toneladas à capacidade atual de 250 mil. Este plano vai custar 5 milhões e deve estar pronto em 2021.
350 Poupança
Numa plantação de milho, a poupança com adubos pode atingir os 350 euros por hectare a cada ano, substituindo equivalentes químicos por uma alternativa mais natural.
120Concelhos
Os associados recolhem as lamas em 120 concelhos para depois serem entregues gratuitamente em 40 concelhos, a centenas de agricultores.
3Licenças
A licença para um projeto para valorização direta, uma alternativa à compostagem, demora atualmente três ou mais anos, o que retira representatividade a este método.