Investidores são fundamentais no financiamento sustentável

Investidores são fundamentais no financiamento sustentável

“O mercado de financiamento sustentável está a ter um crescimento exponencial e em alguns nichos de mercado temos assistido a crescimentos de 100% por ano, ou seja, o mercado dobra a cada ano que passa”, afirma Francisco Moreira, head of Corporate Coverage, do BNP Paribas CIB Portugal, na segunda sessão de Sustainable Finance, iniciativa do Jornal de Negócios em parceria com o BNP Paribas, e que foi dedicada ao Financiamento Sustentável. “Trata-se de um crescimento que não vai parar e pensamos que vai continuar exponencial nos próximos anos, e é um exemplo que mostra que o setor financeiro vai ter de evoluir para poder apoiar a transição energética e modos mais sustentáveis da economia”, disse Francisco Moreira.

Na opinião de Catarina Ferreira da Silva, head of Sustainable Finance Markets Portugal, do BNP Paribas CIB, “não se pode falar de financiamento sustentável sem se falar de investidores e dos mercados, que têm tido um papel fundamental no crescimento desta tendência”.

Ao longo dos anos, os investidores têm integrado nas suas tomadas de decisão os critérios ambientais, sociais e de governo corporativo, o que teve um grande impacto no mercado. “Há um crescimento de fundos especializados que são direcionados para empresas sustentáveis e para o financiamento de projetos sustentáveis. Há um motor muito importante, é quase o follow the money, que realmente está a impulsionar muito este mercado”, refere Catarina Ferreira da Silva.

Mercados e regras globais

Em termos de investimento e financiamento sustentáveis existem, em termos globais, associações como a ICMA (The International Capital Market Association) e LMA (Loan Market Association). São organizações internacionais que têm um conjunto de “princípios que regem tanto as obrigações como os empréstimos em termos do que é necessário estruturar para que este produto seja considerado sustentável”, refere Catarina Ferreira da Silva.

Na Europa, existe o Plano de Ação da Comissão Europeia para o crescimento do financiamento sustentável, que, como diz Francisco Moreira, tem “legislação que impõe mais transparência nas práticas, tanto aos investidores como às empresas em termos do impacto dos seus portefólios, dos aspetos ambientais, sociais e de governança. Quanto aos motores da sustentabilidade, temos muitos fatores de extrema relevância que explicam este crescimento, que esperamos seja muito acelerado”.

Francisco Moreira considera que a “Comissão Europeia tem tido um papel crucial no crescimento e no que vai ser o futuro do mercado do financiamento sustentável, porque, com o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, se criou uma base de alinhamento dos stakeholders em relação ao financiamento sustentável”. Em 2020 teve uma grande concretização pela União Europeia, com o EU Green Deal, que é um projeto de fundos europeus destinado a fazer uma Europa mais digital e mais verde e com uma economia mais sustentável e uma sociedade mais justa.

Nas definições de “o que é que é verde?” e “o que é que é social?”pode haver “uma lente, basicamente uma perspetiva europeia”, sublinha Catarina Ferreira da Silva. Mas se há outras regiões que também estão a desenvolver as suas próprias classificações, para o futuro haverá um alinhamento, ou “uma tentativa de pelo menos não serem muito diferentes, até porque os mercados uma vez mais são globais”.

Mesmos critérios financeiros

Catarina Ferreira da Silva dá como exemplo a China, que na sua taxonomia considerava que o carvão limpo ou o “clean coal” era elegível para financiamentos sustentáveis e que, por pressão do mercado internacional, retirou essa referência. “O carvão hoje em dia é um tipo de investimento que não é considerado verde em região nenhuma do mundo, apesar de ainda haver investimentos”. Por outro lado, também a Europa tem tido foco climático e nas emissões de carbono, mas tem outros objetivos como, por exemplo, a gestão de recursos ou a poluição, e as questões sociais, como a paridade de género.

Francisco Moreira considera que “estamos num processo evolutivo, mas o setor financeiro em geral aplica os mesmos critérios na prossecução de financiamentos sustentáveis. Quer dizer, quando um banco organiza uma emissão de financiamento sustentável, seja ele um “green bond” ou um “sustainable linked loan” aplica uma metodologia que está estruturada nos vários bancos”.

As instituições têm equipas de especialistas, que, neste tipo de financiamentos, fazem uma jornada de sustentabilidade com o cliente, antes mesmo de definir uma estratégia, para fazer uma comparação do que o cliente tem em relação ao setor, utilizando ferramentas de medição dessa sustentabilidade. Só depois desta análise é que se entra numa discussão sobre a estratégia financeira relativamente aos ativos objeto de investimento, de forma que possa efetivamente cumprir melhor os seus objetivos de sustentabilidade. “No setor financeiro, quem atua neste tipo de financiamentos quer obviamente aplicar os critérios com seriedade para evitar o ‘greenwashing’”, assinala Francisco Moreira.