Colin Mayer : “O transporte aéreo excedeu o sustentável”

Colin Mayer : “O transporte aéreo excedeu o sustentável”

Colin Mayer é o coordenador do programa “Future of the Corporation” da British Academy, uma investigação aprofundada sobre o funcionamento das empresas, os seus objetivos e o seu papel na sociedade. Perante a crise provocada pela pandemia, defende que há uma “oportunidade para tornar os negócios mais sustentáveis”.

Como é que a pandemia e a crise vão afetar o caminho para a sustentabilidade?

Depende de como as empresas, os mercados financeiros e os governos por todo o mundo reagirem. É uma verdadeira oportunidade para redefinir os negócios para darem uma contribuição sustentável mais valiosa. Não apenas para a economia, mas também para a sociedade. Isso exige repensar a natureza dos negócios e o papel que têm desempenhado. A crise é uma verdadeira oportunidade para o fazer.

Mas há contradições. Por exemplo: as empresas poderão estar mais abertas ao teletrabalho, que tem uma pegada ecológica menor. Mas as pessoas podem preferir utilizar o seu carro, em vez dos transportes públicos.

Muitos dos sistemas que temos utilizado para os transportes simplesmente não são sustentáveis. Não estamos a medir todos os seus custos. Por exemplo, na aviação, que está neste momento seriamente sob ameaça, não estávamos a tomar em consideração todo o seu custo: o ambiental e o social. E por isso a nossa utilização do transporte aéreo excedeu o que é sustentável. Pensando nos sistemas de transporte do futuro, precisamos de reconstruí-los de forma que se tornem sustentáveis. Compreendemos agora a importância, por exemplo, das bicicletas nos trajetos urbanos para substituir os carros. O comboio é um meio ambientalmente mais apropriado do que o carro. Porque provavelmente também não estávamos a tomar em consideração os verdadeiros custos ambientais e sociais dos carros. Uma vez que reconheçamos a noção de propósito (o que é que estamos a tentar alcançar?) dos sistemas de transporte, vamos pensar: porque é que criámos este problema? O que será preciso para o resolver?

O que antecipa para a evolução do turismo?

O turismo vai mudar de forma muito substancial. De novo, não temos vindo a refletir de forma correta o preço das viagens internacionais porque não tomámos em consideração o seu dano ambiental, nem as consequências sociais do turismo de massas em algumas partes do mundo. Uma vez que o reconheçamos, vamos encorajar as pessoas a pensar no tipo de férias que são apropriadas. No futuro imediato, as preocupações de estar em demasiada proximidade com outras pessoas vão desencorajar as viagens de longo curso. Mas no longo prazo, quando ultrapassarmos a crise atual, precisamos de ter um posicionamento sobre a natureza do turismo que queremos.

Vamos ter uma grande crise, com muitas pessoas a perder o emprego. Os governos e os partidos políticos vão ter de dar respostas. Teme que a necessidade de crescer depressa leve os governos a querer crescer a todo o custo?

Claro que há riscos de isso acontecer. E a história da última década é que falhámos no reconhecimento do risco – apesar de ele ser cada vez mais evidente, em particular, em termos ambientais – de procurar um crescimento ilimitado. Mas há um reconhecimento crescente de que tem havido algo fundamentalmente errado com a forma como desenvolvemos a economia e os negócios. A crise que atravessamos é a segunda manifestação; a primeira foi a crise financeira. Vamos ter crises cada vez mais frequentes e mais graves. Vai haver uma pressão pública crescente sobre os governos e as empresas para reconhecerem que o tipo de crescimento que tivemos no passado simplesmente não é aceitável. Os problemas graves foram criados pela abordagem do passado: problemas ambientais, sociais, políticos, tornaram-se cada vez mais sérios. Não sei se isso vai acontecer imediatamente a seguir a esta crise, e vai variar muito de país para país – alguns países vão aproveitar melhor esta oportunidade do que outros. Mas ao longo do tempo vai-se tornar evidente para todos os países que há crises repetidamente criadas pela abordagem passada. Eventualmente, haverá uma aceitação universal da necessidade de mudar.

“Tem havido algo fundamentalmente errado na forma como desenvolvemos a economia.”
“Vamos ter crises cada vez mais frequentes e mais graves.”
As empresas têm de desempenhar uma função mais social e os Estados têm de apoiar mais os negócios.