Fábricas sustentáveis saem do PowerPoint

Fábricas sustentáveis saem do PowerPoint

Desperdícios da fiação e do corte, restos de coleção e roupas usadas e devolvidas pelos consumidores aos retalhistas. Estas são as matérias-primas que estão a reentrar no processo produtivo para dar origem às malhas e aos tecidos reciclados que vão começar a ser usados pela Valérius na confeção de novas peças de vestuário. Avaliado em 20 milhões de euros, 80% dos quais já concretizados, o projeto de economia circular do grupo de Barcelos é apontado como um exemplo de sustentabilidade na indústria têxtil, do vestuário e da moda, que continua a segurar a indesejada “etiqueta” de segunda mais poluente a nível mundial, só ultrapassada pelo petróleo.

Localizada em Guilhabreu, no concelho de Vila do Conde, esta inovadora fábrica com 16 mil metros quadrados de área coberta está ainda a ser montada e a produção arranca no final de julho. José Manuel Vilas Boas Ferreira diz ao Negócios que esta unidade que reconverteu a antiga Outex, abandonada desde a saída dos donos americanos em 2008, vai empregar 80 pessoas nesta primeira fase. Em janeiro de 2021 arranca a produção de papel-algodão a partir dos mesmos desperdícios de têxtil – pode ser usado para os sacos das lojas, as etiquetas de cartão ou as caixas das entregas online – e vai contratar mais 20 pessoas. “O maior problema neste processo é a separação, que é muito manual, porque depois todo o processo da fiação e de fazer o papel é muito automatizado”, conta o empresário.

Nos quatro anos que passaram desde a ideia ao desenvolvimento dos produtos para a designada fábrica Valérius 360, a companhia minhota apurou a tecnologia para que o cliente “quase não [distinga] entre uma matéria-prima virgem e reciclada” e confia que “a diferença é que o produto tem uma história, que é cada vez mais valorizada pelo consumidor”. “Quando isto começou a ser pensado, em 2016, não se falava muito nestas questões. Era mais ‘PowerPoint’ do que realidade. Hoje é um projeto bastante atual e espero que daqui a alguns anos haja 10 ou 20 e que Portugal passe a ser conotado como um país limpo”, rematou José Manuel Ferreira.

Acenar com economia

A economia circular, em particular a área da simbiose industrial, é uma das que mais têm ocupado a ISQ no apoio às empresas, seja para reduzir os custos de se desfazerem dos resíduos ou para lucrar com eles, reintegrando-os no seu processo ou passando-os para outra fábrica. É o caso de uma agroalimentar com vários desperdícios e custos para aterro, que está agora a incorporá-los como fertilizantes e a vendê-los a outras unidades de processo. A par do tema clássico da eficiência energética, outro que está a ganhar peso é o da ecoeficiência, ligando as emissões ao valor do produto. “Ao usarem menos recursos vão ter menos impactos ambientais, mas ao mesmo tempo ter um retorno económico maior. O ambiente é muito importante, mas para conseguirmos levar a indústria a envolver-se com a sustentabilidade temos de os cativar sempre com a componente económica. É o nosso discurso para os aliciar”, confessa Muriel Iten, responsável do grupo de investigação na área do baixo carbono e da eficiência de recursos.

Neste campo, Ricardo Rato, líder da investigação e desenvolvimento (I&D) e da inovação no mesmo grupo, concorda que a indústria tem “histórico” na adaptação dos recursos humanos, mas na utilização eficiente de matérias-primas, de água ou de energia “há ainda um campo importante para avançar com metodologias específicas e novas abordagens”. Em particular nas PME, pela própria dimensão e pela escassez de pessoal qualificado nestes tópicos. A exceção são as indústrias de processo (químicas, de cimento ou de pasta e papel), uma vez que os custos de operação estão muito baseados nestes recursos. Muriel Iten aceita que “nas pequenas empresas é mais complicado porque têm um orçamento mais limitado”. Porém, salvaguarda que por vezes é “mais uma questão de mudar a mentalidade” e que “a componente social e organizacional é muito importante na sustentabilidade porque altera o procedimento tradicional”.

Do digital à pandemia

Além do ambiente e da economia, João Wengorovius Meneses reforça que a sustentabilidade incorpora a “governance”, envolvendo ética, transparência e gestão, e os temas sociais, como a relação com a cadeia de valor a montante (fornecedores) e a jusante (clientes), sem esquecer o que está no perímetro da organização, como os trabalhadores. O secretário-geral da BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável aponta o dedo a “desigualdades salariais significativas, assimetrias de género e falta de escrutínio e tradição de ‘reporting’” no universo das PME. “Há pouca transparência e uma certa opacidade no tecido industrial português, que ainda não olha para a sustentabilidade como oportunidade de negócio e de competitividade”, desabafa.

Aludindo à potencialidade da indústria 4.0 e deste perímetro tecnológico da inteligência artificial, da Internet das Coisas, dos drones, do “blockchain” e da nanotecnologia, o ex-secretário de Estado da Juventude e do Desporto considera que “a indústria portuguesa terá um futuro risonho se conseguir conjugar a transformação digital com a sustentabilidade e as exportações”. E embora muitas fábricas estejam preocupadas neste momento em sobreviver, concorda Ricardo Rato, não será a pandemia de covid-19 a travar esta revolução sustentável no país e na Europa, agora até mais convencidos a garantir uma maior autonomia em termos de produção e de segurança no abastecimento de energia ou matérias-primas.

O produto reciclado tem uma história e isso é valorizado pelo consumidor.José Manuel Ferreira
Presidente do Grupo Valérius
Para levarmos a indústria a envolver-se, temos de cativar com a componente económica.Muriel Iten
Investigadora
Fechar o ciclo da utilização dos materiais é uma forma de aumentar a autonomia do país.Ricardo Rato
Diretor de inovação do ISQ