Como Portugal tem dado energia às renováveis

Como Portugal tem dado energia às renováveis

O trajeto das renováveis em Portugal espelha o forte investimento de que o setor tem sido alvo. Uma aposta que devido aos apoios públicos nem sempre foi bem vista. Mas que, como vários especialistas têm alertado, já ganhou maturidade suficiente para continuar a trilhar o seu caminho sem subsídios. E ninguém parece ter dúvidas do seu papel para acelerar a redução das emissões de gases com efeito de estufa.

O contributo da produção de energia hídrica para o mix energético em Portugal é dos mais antigos. Já a aposta na produção de energia a partir do vento e do sol começou a ganhar algum destaque apenas por volta de 1992 e 2007, respetivamente. E se nessas datas o peso destas fontes de energia limpa não passava dos 0,1%, em 2019 a eólica contribuiu com 26% do total de produção de eletricidade e a solar com 2%. No total, as energias renováveis foram responsáveis, no ano passado, por 51% da eletricidade consumida em Portugal. Um número que aumentou para 69% nos primeiros quatro meses deste ano. Tendo em conta este crescimento, quando será possível ter energia 100% verde?

De acordo com o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), Portugal chegará aos 80% de incorporação de eletricidade renovável em 2030. “Os 100% apenas serão atingidos, provavelmente, em 2040”, explicou ao Negócios Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação de Energias Renováveis (APREN).

“Apesar de já termos meses com elevada incorporação renovável e vários períodos horários em que conseguimos assegurar o abastecimento com geração 100% renovável, ainda temos um longo caminho a percorrer para atingir um mix elétrico totalmente renovável”, sublinhou.

Para atingir esta meta há passos essenciais que têm que ser dados, nomeadamente a instalação de mais capacidade renovável e “tecnologia de armazenamento de energia que dê estabilidade e segurança de abastecimento ao sistema elétrico”, acrescentou Pedro Amaral Jorge.

Uma posição partilhada pela Iberdrola que, pelo voz de José María Otero, responsável pelo licenciamento e serviços afetos ao projeto Tâmega, aponta ainda para a necessidade de “incrementar a eletrificação de muitos setores da economia, como os transportes e a climatização de edifícios e agilizar o encerramento das minas de carvão”.

José María Otero não tem dúvida que estes passos podem ser dados. Mas, para tal, defende que “os governos e a União Europeia devem criar os quadros regulatórios apropriados que permitam desenvolver esse investimento, por um lado alterando a tributação para um princípio no qual os que poluem paguem e, por outro lado, encurtando os prazos e agilizando a tramitação de permissões, autorizações, conexão à rede, etc”.

O responsável da Iberdrola, que tem em curso a construção de um complexo hidroelétrico no Alto Tâmega com um investimento total de 1,5 mil milhões de euros, alerta ainda para o facto de a atual crise causada pela pandemia oferecer uma oportunidade única para a concretização destas medidas. Até porque, “a saída desta crise só se fará com investimento criterioso e criação de empregos”.

O papel do armazenamento

Apesar da evolução positiva do peso das renováveis, a geração de eletricidade apenas através de recursos limpos ainda não é possível por dois motivos: as condições climatéricas e ainda não existirem “tecnologias de armazenamento de energia, capazes de assegurar uma produção elétrica 100% renovável de forma permanente e continuada no tempo”, relembrou Pedro Norton, presidente executivo da Finerge.

Já Miguel Checa, diretor-geral da Goldenergy, considera que “devido à imprevisibilidade do vento e do e sol”, aliado à ausência de uma tecnologia de armazenamento suficiente, não acredita “que se torne provável a curto prazo a total independência das energias convencionais, sendo que ainda necessitamos de uma tecnologia baseada em gás como um “back-up” de garantia”.

Mais de metade da energia já é verde
Evolução do peso da energia renovável nos últimos cinco anos

A produção de eletricidade através de fontes limpas já representa mais de metade do consumo no mercado nacional.

Hídrica continua a liderar
Evolução da produção de eletricidade por fonte de energia

A hídrica tem sido a fonte de produção de energia renovável com maior peso no mix energético.

As metas previstas no PNEC até 2030

47% de energia renovável
O Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) elaborado pelo gabinete do ministro do Ambiente, Matos Fernandes, estabelece uma meta de 47% de incorporação de renováveis no consumo final de energia até 2030. Um objetivo que compara com os 31% estipulados até 2020. O plano prevê também uma redução no consumo de energia primária de 35%, assinalando a aposta do país na descarbonização do setor energético, com vista à neutralidade carbónica em 2050 definida pela Comissão Europeia para todos os Estados-membros.

Fecho de centrais a carvão
O PNEC prevê a reconfiguração do sistema elétrico nacional através de um aumento em 15% das interligações elétricas. Isso irá permitir atingir a meta de 80% de fontes renováveis na produção de eletricidade em 2030. Para tal, além do reforço da produção de energia limpa, também está previsto o encerramento das centrais a carvão até 2023. A estratégia para o crescimento nas energias renováveis passa, sobretudo, pelo solar, que representará 24% da geração renovável no final da década.

Redução até 55% de emissões de CO2
O documento tem ainda como principais metas a redução entre 45% e 55% de emissões de gases com efeito de estufa face aos valores registados em 2005. No que toca à importação de energia, o PNEC pretende reduzir o atual valor de 75% para 62% até ao final de 2030.

Ainda temos um longo caminho a percorrer para atingir um mix elétrico 100% renovável.Pedro Amaral jorge
Presidente da APREN
Ainda não existem tecnologias de armazenamento de energia, capazes de assegurar uma produção elétrica 100% renovável.Pedro Norton
CEO da Finerge