Pandemia é menos amiga do ambiente do que parece

Pandemia é menos amiga do ambiente do que parece

No final de fevereiro, quando os cientistas da NASA e da Agência Espacial Europeia olharam para os níveis de concentração de dióxido de azoto sobre a China, ficaram boquiabertos: nunca tinham visto uma quebra tão abrupta da poluição do ar. A paragem da produção, ditada pela necessidade de travar o contágio da covid-19, teve um efeito positivo para o ambiente. Mas passados três meses, a ideia de que a pandemia poderá ajudar a humanidade a encontrar um caminho mais sustentável é, no mínimo, controversa.

Perante a questão de saber se a pandemia vai promover um crescimento económico mais sustentado, com uma utilização mais inteligente e solidária dos recursos, pode dizer-se, de forma simplificada, que há dois pontos de vista: o dos otimistas, que veem a oportunidade para mudar, e o dos pessimistas, que sublinham os atuais incentivos negativos que já estão no terreno.

“A pandemia é uma oportunidade para perceber que as questões ambientais não são contra as empresas”, defende Rita Sousa, professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, doutorada em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentado. A académica faz parte da corrente dos otimistas, olha sobretudo para o potencial de mudança de comportamentos que o período de confinamento trouxe.

“O confinamento apresentou uma realidade que não se acreditava possível”, defende, referindo-se à experiência do teletrabalho de forma generalizada e à redução das viagens de avião por motivos profissionais.

Com a necessidade de isolamento social, as empresas viram-se obrigadas a continuar a produzir, mas com os trabalhadores em casa. A experiência mostrou a muitas empresas que é possível e, em alguns casos, “o teletrabalho está a ser assumido como uma opção, independentemente da pandemia”, diz a professora.

Esta alteração de comportamento é positiva para o ambiente porque implica menos poluição atmosférica, com a menor utilização do transporte aéreo e rodoviário e a inerente poupança de combustíveis. Ou seja, é um empurrão para acelerar o roteiro para a descarbonização que já tinha sido traçado. Rita Sousa vai ao encontro da ideia de Colin Mayer, o professor da British Academy responsável pela investigação sobre o papel das empresas na sociedade: a pressão vai no sentido de se reconhecer que é preciso mudar, argumenta, em entrevista ao Negócios.

Também na Europa o confinamento trouxe uma diminuição dos níveis de concentração de dióxido de azoto.

A pressa de crescer para sair da crise

O problema é a pressa de crescer, dizem os céticos. É uma pressa compreensível, reconhecem – as populações precisam de sair da pobreza, é preciso criar empregos para salvar a economia, que ficou num estado historicamente doente. Mas o modo como se sai da crise não é indiferente para o planeta no médio prazo.

Susana Peralta, economista da Nova SBE, também vê a oportunidade de mudar. Sublinha o efeito do teletrabalho e nota que há uma perceção maior do risco de distribuir mal o planeta, de dar pouca atenção ao espaço da vida selvagem.

Mas “há pressa em voltar ao business as usual”, contrapõe. Esta pressa “pode ser inimiga de escolhas ponderadas” e por isso o resultado final vai depender da existência de “uma enorme vontade política”. E há decisões, contrárias à sustentabilidade ambiental, que já estão a ser tomadas sem que tenha havido uma expressão democrática dessa vontade.

Susana Peralta dá o exemplo da compra de ativos por parte do Banco de Inglaterra, no âmbito do seu programa de ‘quantitative easing’, que está a beneficiar empresas como a BP. Ou, em Portugal, a ideia de injetar mil milhões de euros para salvar a TAP, quando em tudo o resto foram gastos até abril 600 milhões de euros. “Se vamos fazer uma transição energética, há setores que vão perder e outros florescer; mas precisamos de ter processos transparentes”, frisa.

A tempestade perfeita contra a descarbonização

Alfredo Marvão Pereira, economista do College William and Mary, vai ainda mais longe: “está criada a tempestade perfeita” contra os objetivos de descarbonização da economia. “Os preços do petróleo estão baixíssimos. Se quiser fazer uma recuperação rápida, o incentivo é para fazê-la através da indústria dos combustíveis fósseis”, explica. Além disso, a crise por um lado, e os preços do petróleo por outro, “levam a uma erosão enorme dos investimentos em renováveis”, soma.

Para Marvão Pereira, os benefícios ambientais que resultaram da paragem da atividade económica são “uma gota no oceano do ponto de vista do stock acumulado de emissões”. O teletrabalho poderá ter um “impacto muito pequeno” porque nada indica que as viagens de trabalho não sejam substituídas por viagens de lazer, agora que os preços dos combustíveis e das passagens aéreas estão mais baixos.

Ou seja, “não fizemos nenhum progresso” em direção ao objetivo de descarbonização de 45% até 2030 “e os incentivos estão a entrar ao contrário”, argumenta. O especialista em assuntos energéticos não tem dúvidas de que “a janela de oportunidade para cumprir estes objetivos foi encurtada pela pandemia” num par de anos. “Não estou nada convencido de que as pessoas vão mudar assim tanto”, remata.

Os preços do petróleo estão baixíssimos. Se quiser fazer uma recuperação rápida, o incentivo é para fazê-la através da indústria dos combustíveis fósseis.alfredo marvão pereira
Economista e professor no College William and Mary
Há pressa em voltar ao business as usual e essa pressa pode ser inimiga de escolhas ponderadas.susana peralta
Economista da Nova SBE
A pandemia é uma oportunidade para perceber que as questões ambientais não são contra as empresas.Rita sousa
Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho