Ângela Morgado: “O novo acordo é a chave para a sobrevivência da humanidade”

Ângela Morgado: “O novo acordo é a chave para a sobrevivência da humanidade”

O Relatório Planeta Vivo (RPV) é a publicação mais emblemática da rede WWF (World Wide Fund for Nature) sobre o estado de saúde do planeta, e tem vindo a evidenciar a necessidade absoluta de iniciarmos outro caminho. O RPV mostra a que as florestas, os oceanos e os rios estão em risco. O impacto e a pressão que o Homem exerce sobre o planeta estão a minar o tecido vivo que nos sustenta a todos: a natureza e a biodiversidade. As populações globais de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis diminuíram 68% desde 1970, devido a atividades humanas, que provocam perda e degradação de habitats.

O RPV alerta por isso, que é fundamental optar por um novo caminho que permita à humanidade coexistir de forma sustentável com a natureza da qual depende. Este caminho é o Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas para proteger e restaurar a natureza até 2030 (Natureza Positiva 2030), em benefício das pessoas e do planeta e como suporte aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A diretora executiva da ANP explica ao Negócios que “o novo acordo tem três metas: zero perda de habitat; zero extinção de espécies; e reduzir para metade a pegada ecológica da produção e do consumo”. Ângela Morgado salienta que as pesquisas dos mais de 125 especialistas que colaboraram no RPV mostram que “o mundo poderia começar a estabilizar e reverter a perda da natureza ao conjugar esforços de conservação mais ousados e ambiciosos, bem como fazer mudanças transformacionais na forma como produzimos e consumimos alimentos, como tornar a produção e o comércio de alimentos mais eficientes, reduzindo o desperdício e favorecendo dietas mais saudáveis e sustentáveis”.

A covid-19 é “uma manifestação clara”

O relatório da WWF destaca como a crescente destruição da natureza pela humanidade está a ter impactos catastróficos não apenas nas populações de vida selvagem, mas também na saúde humana e em todos os aspetos das nossas vidas. Por isso, doenças como a covid-19 são uma das muitas ligações entre a saúde das pessoas e o planeta. Marco Lambertini, diretor-geral da WWF International, salienta que esta pandemia é “uma manifestação clara” da rutura na relação com a natureza.

Em Portugal, e de acordo com os dados da ANP|WWF, a retoma económica no pós-troika e o aumento do turismo têm levado a um crescimento do consumo com consequências graves para a pegada ecológica média dos portugueses, que agora necessitam do equivalente a 2,52 planetas ao ano para dar resposta às suas necessidades, por oposição aos 2,23 planetas referidos no relatório de 2018, excedendo largamente a biocapacidade do nosso país.

Por isso, a forma como a humanidade escolher recuperar-se da covid-19 e enfrentar as ameaças iminentes da mudança ambiental global influenciará a saúde e os meios de subsistência das gerações futuras (ver caixa).

“Não podemos ignorar as evidências – o declínio grave da vida selvagem é um indicador de que a natureza está a desaparecer com graves consequência para a saúde humana. O nosso planeta está a enviar-nos a todos sinais de alerta”, afirma Ângela Morgado, acrescentando que “no meio de uma pandemia global, é mais importante que nunca iniciar uma ação global coordenada e sem precedentes: O novo acordo é a chave para a sobrevivência da humanidade”.

Portugal no 46.º lugar

A Pegada Ecológica, per capita em Portugal (em 2016, ano a que se refere o RPV), aumentou significativamente e posiciona o país no 46.º lugar a nível mundial neste relatório, enquanto no RPV de 2018 aparecia na 66.ª posição. Este dado revela que a recuperação económica implicou um aumento significativo do consumo dos portugueses e dos turistas que procuram Portugal como destino.

O país que ocupa o primeiro lugar nesta escala de pegada é o Qatar (sendo o que apresenta pior desempenho ambiental). Países como os Estados Unidos, a Austrália, o Canadá, França, Itália, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Suíça e Alemanha têm pegadas superiores a Portugal.

O carbono, que representa 56% da pegada ecológica dos portugueses, foi o componente que mais diminuiu, influenciando os valores totais nacionais. Por exemplo em 2004, o carbono correspondia a 63% do valor total. Já o componente no qual se observa um maior crescimento relativo é o dos produtos florestais, num aumento de 92% entre 2014 e 2016.

WWF lança petição

O RPV foi lançado a poucos dias da 75.ª sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, que decorre nesta altura e na qual se espera que os líderes mundiais revejam o progresso feito nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, no Acordo de Paris e na Convenção da Diversidade Biológica (CDB). A assembleia reúne líderes mundiais, empresas e a sociedade civil para desenvolver o quadro de ação pós-2020 para a biodiversidade global, sendo por isso um momento-chave para estabelecer as bases para um Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas.

Para reforçar a necessidade do Natureza Positiva 2030, a WWF lançou uma petição, que pode ser encontrada em: panda.org/pandemics e em que se pede aos líderes mundiais que implementem políticas e planos de ação “One Health” que garantem que estão a fazer de tudo para proteger a humanidade de futuras pandemias.

Em Portugal, Ângela Morgado disse ao Negócios que a ANP/WWF vai lançar, a 15 de outubro, uma plataforma – Mudança Verde – para ajudar todos os cidadãos a tornar o seu comportamento mais sustentável no dia a dia. “A plataforma vai estar dividida em temas como Casa, Trabalho, Jardim, Lazer e terá alternativas concretas mais sustentáveis a diversos comportamentos. Posso escrever, por exemplo, ‘vou viajar de Lisboa para o Porto de carro’ e a plataforma propõe alternativas mais sustentáveis”.

É hora de respondermos ao SOS da natureza. (…) Porque ignorá-lo também põe a saúde, o bem-estar e a prosperidade, na verdade o futuro, de quase oito mil milhões de pessoas em jogo. Marco Lambertini
Diretor-geral da WWF International
O novo acordo tem três metas: zero perda de habitat; zero extinção de espécies; e reduzir para metade a pegada ecológica da produção e do consumo. Ângela Morgado
Diretora executiva da ANP