Frigorífico sustentável “papa” meio milhão até 2022

Frigorífico sustentável “papa” meio milhão até 2022

A YBY Foods é uma empresa portuguesa recém-nascida, com sede na Areosa, e cujo negócio, de base sustentável, já teve de sobreviver à covid-19. O lançamento do produto bandeira foi adiado de março para julho, mas já está a chegar aos primeiros clientes e a traçar um caminho que deverá trazer meio milhão aos fundadores nos próximos dois anos.

Um frigorífico sustentável, que se assemelha em tudo às máquinas automáticas, mas que se distingue por duas características: oferece apenas comida saudável e possui uma “inteligência acima da média”, pois é dotado de tecnologia que vem simplificar a compra e otimizar a gestão de stock. É este o produto bandeira da YBY Foods, que vai chegar esta semana aos escritórios de duas empresas do Porto, a Inova+ e a Mindera. Mas a perspetiva é que, em breve, sirva também duas multinacionais e que saia do seio do Porto para Lisboa e, talvez, Madrid.

“É a partir de julho que prevemos poder instalar frigoríficos ao ritmo que foi previsto antes da covid-19”, isto é, cerca de sete por mês em 2020, explica o cofundador e CEO da YBY Foods, Francisco Fernandes. Este ano, o objetivo de faturação está nos 25.000 euros, mas sobe para 325.000 em 2021 e, dois anos após o lançamento, deverá estar nos 510.000 euros, prevê a equipa, com base nas negociações atuais com potenciais clientes.

Esta receita provém da venda dos snacks, produzidos pela própria YBY Foods, o que proporciona uma margem maior, explica o CEO. A lógica foi “colocar um preço equivalente àquele que uma pessoa está habituada a pagar por um lanche comum num café”, evitando os valores ‘premium’ associados à venda de comida mais saudável.

Um negócio sustentável

A YBY Foods quis ter a sustentabilidade nas suas raízes e esta está integrada no modelo de negócio da empresa. Tudo começa com o próprio frigorífico, que é adquirido em segunda mão em Portugal e depois recuperado pela YBY Foods.

“O nosso produto distingue-se pela tecnologia de inteligência artificial utilizada”,defende o CEO. A YBY Foods sabe à distância e em tempo real o stock de cada frigorífico, permitindo a otimização de rotas de distribuição, o que reduz as emissões poluentes associadas ao transporte. Por outro lado, evita o desperdício alimentar, através execução de preços variáveis: são aplicados descontos automáticos em função das datas de validade. Além disto, é dada a indicação quando determinado produto deve ser movido para outro frigorífico onde deverá ser consumido.

Abrindo o frigorífico, o cliente depara-se com embalagens de vidro, fabricadas por vidreiras portuguesas. Estas podem ser deixadas, para já, numa caixa própria anexa ao frigorífico, para serem depois recolhidas no momento de reposição de stock, trazidas para a central de produção, lavadas e esterilizadas antes de voltarem à linha de enchimento. Neste momento os clientes não ganham nada, mas a YBY Foods tem uma aplicação móvel preparada para colocar um crédito para cada cliente que devolva a embalagem. Uma funcionalidade que deverá estar disponível dentro de três a quatro meses.

Esta aplicação, que servirá para acumular créditos, é a mesma que já permite aos clientes fazerem os pagamentos, através de um cartão de crédito associado ou MBWay.

Os fundos que vieram ‘do fundo’

A ideia de criar a YBY Foods surgiu no verão de 2018, numa conversa na varanda do apartamento que, na altura, os fundadores partilhavam. Quando decidiram avançar, mudaram de casa: alugaram uma vivenda e foi na cave que começaram a surgir os snacks.

“A YBY Foods não se financiou através de qualquer meio tradicional, nem banca nem capital privado. Foi tudo à base de suor e lágrimas, muitos meses sem tirar salários, escritório numa garagem terrível e muitas latas de atum”, conta Francisco Fernandes. O salário que os fundadores ganhavam nos respetivos empregos eram utilizados para pagar aos funcionários, até que se sentirem seguros para se dedicarem a tempo inteiro. em agosto de 2019, depois de algumas tentativas falhadas no negócio dos snacks saudáveis para o mundo de trabalho, descobriram a fórmula que mantêm até agora: o frigorífico.

A cozinhar o negócio, por agora, está apenas uma equipa de quatro pessoas. Um dos fundadores, Francisco Fernandes, da área de Economia, é o criador do software que dá a “inteligência” ao frigorífico. Diogo Dias, que também fundou a empresa e é o sócio-gerente, formou-se em engenharia eletrotécnica e é responsável pela recuperação dos equipamentos. A criação e confeção dos snacks está a cargo de uma colaboradora e há ainda uma pessoa para gerir a comunicação e marketing. Contudo, caso o negócio evolua como esperado, terão de contratar em breve. “Na produção alimentar, é preciso uma pessoa para cada 15 frigoríficos”, aponta Francisco Fernandes. O ciclo de sustentabilidade da YBY Foods
Infografia com os pontos do modelo de negócio que o tornam sustentável

O frigorífico que serve de ‘casa’ aos snacks da YBY Foods tem vários pontos de sustentabilidade. Desde as embalagens, que são de vidro e reinseridas na cadeia de produção, até à gestão de stock que, sendo feita com tecnologia de inteligência artificial, permite otimizar as rotas de reabastecimento e até adaptar os preços de forma a reduzir o desperdício alimentar.

Perguntas a Francisco Fernandes
Fundador e CEO da YBY Foods

“Com a covid-19 apressámo-nos a lançar a loja online”

Até chegar à “fórmula” certa, existiram percalços, entre eles a pandemia. O CEO da YBY Foods conta alguns deles e os remédios para avançar.

A empresa começou em 2018, mas só em 2019 iniciaram o desenvolvimento do vosso produto bandeira, o frigorífico. O que vos levou até lá?
Primeiro pensámos num modelo de entrega baseado em subscrições, mas não resultava. Sempre que visitámos um possível cliente levámos amostras para a administração mas também para os trabalhadores, para que fizessem pressão. Isso aconteceu, todos gostavam da comida, mas as pessoas não gostam de estar presas à subscrição. Começámos a falar na hipótese do frigorífico – a partir daí, a resposta foi 100% sim.

Como sobreviveram à pandemia?
Em março estávamos prontos para o lançamento, mas com a covid-19 e sem investimento ficámos numa má situação – não íamos ter dinheiro no banco. Então, apressámo-nos a lançar a loja online. Vendemos os produtos com um preço superior ao praticado nas máquinas e tivemos adesão, embora queiramos manter o inicialmente planeado no que toca aos preços. Temos atualmente 300 registos no site.

Como conseguiram lançar-se rapidamente e chegar a negociações com multinacionais?
Quando estudei na IE Business School, em Madrid, trabalhei na incubadora de startups. Eu era responsável por receber os investidores todas as semanas para um “mini Shark Tank”(concurso em que investidores ouvem e avaliam uma nova ideia). Percebi como funcionavam as coisas na fase de não ter recursos. Chegámos, por exemplo, a visitar um McDonald’s para perceber os procedimentos de higiene e segurança alimentar. Depois foi aplicar as estratégias comuns: “influencers” digitais, “giveaways”, alguns anúncios no Facebook. Além disso, pedimos opiniões a especialistas, como gestores de marketing digital. Normalmente, quando percebem que estamos a tentar a todo o custo, não têm problema nenhum em ajudar.