Bitcoin gasta quase o triplo da energia de Portugal

Bitcoin gasta quase o triplo da energia de Portugal

A mais conhecida das criptomoedas tem brilhado nos mercados, mas o império bitcoin só é possível com recurso a muita, mesmo muita, energia. Num ano, a produção desta moeda exige mais eletricidade do que a consumida por toda a população de alguns países - os portugueses, por exemplo, precisaram só de um terço em 2019. E a tendência é para crescer.

A bitcoin consome, por ano, cerca de 130 terawatts por hora (TWh), calcula o Centro de Finanças Alternativas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Um valor que ganha significado quando a comparação são os consumos de vários países num ano: é quase tanto como os 131 TWh que a Suécia exigiu em 2019, mais que os cerca de 125 TWh da Noruega e da Argentina, e quase o triplo dos 48 TWh de Portugal, utilizando os dados por país publicados pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.

“Minar” bitcoin, ou seja, produzir a moeda, é o processo que está a requerer as centenas de terawatts, e a tendência é que sejam necessários cada vez mais. No início, era possível fabricar bitcoins com apenas um computador, a partir de casa. Mas “quantos mais miners (produtores), mais difícil é resolver o puzzle” que permite obter bitcoins, explica Michel Rauchs, um dos investigadores do Centro de Finanças Alternativas.. E cada vez que a dificuldade do puzzle aumenta na sequência do alargamento da rede, é necessária mais energia para encontrar a solução e receber a desejada moeda. Com os preços a subir, o incentivo para entrar neste “jogo” será maior, e portanto as necessidades energéticas deverão subir.

Na altura em que minerava não havia muita atenção (ao impacto energético), só tomei consciência mais tarde. Pedro Cunha
Miner e investidor de bitcoin

“O principal fator para aferir a rentabilidade de uma mineração é o consumo de energia. Este consumo vem da energia necessária para termos uma máquina ligada, mas também dos equipamentos que teremos de ter ligados para a refrigeração”, explica Pedro Cunha, que minerou bitcoin em 2013 e 2014, e de momento limita-se a investir no ativo. Agora, este miner afirma que a “pegada ambiental é muito violenta” e que seria um travão se considerasse voltar a produzir bitcoin. “Na altura em que minerava não havia muita atenção, só tomei consciência mais tarde”, diz.

Contudo, ressalva Rauchs, “falámos sobre quanta energia a bitcoin consome. Isso não significa que o impacto ambiental é proporcional a esse aumento”. O impacto depende do tipo de energia que é usado, tendo isso em conta, existem soluções.

Uma bitcoin mais limpa

“Eu não teria problema em fazer mineração a partir da Islândia” afirma Pedro Cunha, apontando que neste país é possível minerar com recurso ao calor da terra e os meios de refrigeração são abundantes.

“Um projeto de uma central de energia renovável que não consuma toda a sua produção, tem basicamente energia desperdiçada, até porque estes projetos são concebidos a 50 ou mais anos, assumindo que o consumo aumente ao longo do tempo”, explica Nuno Melo, analista da XTB. “Este cenário é claramente convidativo para minerar, já que esta atividade irá consumir energia que de outro modo seria desperdiçada. O ‘mining’ pode inclusive viabilizar projetos de energias renováveis”, conclui.

Muitas (empresas que produzem bitcoin) já estão a anunciar-se como 100% verdes.  Michel Rauchs
Investigador do Centro de Finanças Alternativas

Além do preço da mineração, que pode ser mais baixo quando aproveitados os desperdícios da produção renovável, há outros incentivos a que a moeda passe a ser mais ecológica. As empresas que se dedicam a produzir bitcoin querem crescer e, para impressionar os investidores, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são cada vez mais um critério essencial. Neste sentido, “muitas já estão a anunciar-se como 100% verdes”, aponta o investigador do Centro de Finanças Alternativas.

Já mudar a forma como a bitcoin funciona, de maneira a que não houvesse um crescendo nas exigências energéticas decorrente do desafio do “puzzle”, não é uma hipótese viável, aos olhos de Rauchs. Sendo uma moeda descentralizada, seria preciso o acordo de toda a comunidade, o que, tendo em conta as atuais dimensões da rede, será impraticável. Por outro lado, ação governamental também não aparece como uma hipótese sedutora, já que seria fácil para os miners mudarem simplesmente o sítio do fabrico, fugindo a restrições, afere.