Clima passa a “urgente” entre as empresas

Clima passa a “urgente” entre as empresas

A esmagadora maioria dos líderes empresariais já olha para a ação climática como urgente, embora a pandemia tenha vindo travar os esforços, conclui um estudo global da Deloitte.

82% dos líderes dizem estar preocupados ou muito preocupados com os efeitos das alterações climáticas e afirmam ser urgente agir, avança a consultora, com base no Climate Pulse Survey 2021, que auscultou 750 líderes empresariais de 13 países da Ásia, Europa e América, excluindo Portugal. Esta é uma diferença “muito notória” face aos inquéritos feitos em anos anteriores, nos quais o caráter de emergência não era tão marcado, afirma Carlos Cruz, partner da Deloitte. “A crise climática deixou de ser vista como uma ameaça vaga e distante, e passou a ser olhada como requerendo intervenção urgente entre os decisores ao nível da empresa”, explica o mesmo. Assim, esta questão parece ter deixado de ser relevante apenas em termos da comunicação e imagem da empresa.

30Impacto
30% dos líderes indicam que as suas empresas já sentem impactos operacionais de desastres climáticos 

A noção de emergência resulta também de impactos cada vez mais visíveis, uma vez que mais de 30% dos líderes indicam que as suas organizações já sentem impactos operacionais de desastres relacionados com o clima, e mais de um quarto dos executivos está a enfrentar escassez de recursos devido às mudanças climáticas. Dois dos setores onde se deteta um maior sentido de emergência são os do consumo e da energia, assinala o partner da Deloitte. Os eventos climáticos graves abalam o setor primário, e conduzem a escassez e incerteza nas cadeias de abastecimento do retalho. No caso da energia, o abastecimento chega a ser interrompido na sequência destes eventos. Por isto mesmo, estes setores deverão agir mais rapidamente, prevê.

65Cortes
A maioria das organizações assume ter travado iniciativas de sustentabilidade dada a pandemia de covid-19. 

No entanto, há um senão. A pandemia ajudou o clima no sentido em que permitiu uma redução das emissões poluentes e induziu algumas mudanças positivas nas empresas: o teletrabalho, a digitalização de processos e a redução das deslocações para eventos de negócios são algumas das tendências amigas do ambiente que a Deloitte prevê que se mantenham no pós-pandemia. Contudo, a mudança de foco para resolver problemas mais imediatos decorrentes da covid-19, faz com que 65% dos líderes assuma que as suas organizações estão a cortar algumas das iniciativas de sustentabilidade que tinham em mãos, apesar de quase 25% dos executivos avançarem que as respetivas organizações pretendem pôr o “pé no acelerador” da sustentabilidade nos próximos 12 meses. Numa nota também mais negativa, 34% dos inquiridos indica mesmo que acredita que já atingimos um ponto sem retorno. Para Cruz, a questão não é “atuar ou não atuar”, pois o estudo indica que vão de facto haver mudanças, mas sim “o ritmo a que as empresas pretendem adotar as medidas”, que variará consoante a atividade.

Faltam métricas

Outra das conclusões é a de que 72% dos empresários desejam que os governos assumam um maior papel no controlo da crise climática. A Deloitte assinala que a intervenção dos governos não vem só na forma de regulação, mas também de incentivos. “Os executivos acham importante que esta atuação seja intensificada, que os governos apoiem neste contexto de transição”, diz Carlos Cruz.

72Governo
Quase três quartos dos empresários deseja que os governos sejam mais proativos na indução de mudanças. 

Outro aspeto no qual “houve uma evolução significativa, mas o trabalho não está certamente terminado” é a definição e harmonização de métricas para a sustentabilidade. “Existe uma multiplicidade de referências, longe da estandardização, para que sejamos capazes de medir e comparar”, afirma o partner da consultora, ao mesmo tempo que acredita que este seria um motor “importantíssimo” para a mudança.

Sustentabilidade compensa

Os inquiridos apontaram vários impactos positivos da adoção de esforços de sustentabilidade. Em primeiro lugar, 49% apontam a satisfação do cliente como consequência. O recrutamento e retenção de talento é outra vantagem assinalada por 47% destes empresários. Neste capítulo, também são dados como ganhos o envolvimento das equipas em torno destas matérias e uma maior identificação com os valores organizacionais.

Mas as motivações financeiras não ficam de fora. Em terceiro lugar, 46% dos executivos dizem que as medidas sustentáveis têm um impacto positivo em termos das métricas como os resultados líquidos ou as receitas. “já existe a perceção que as empresas a longo prazo podem ganhar mais dinheiro, tornar-se mais lucrativas e aumentar os seus negócios” se alinhadas com princípios verdes, afirma Carlos Cruz. A satisfação dos acionistas e eventuais investidores, assim como um menor custo de capital, é outra razão para a sustentabilidade que é apontada por praticamente 30% dos gestores.

Portugal “muito mais limitado” O estudo da Deloitte não contou com a participação de gestores portugueses, mas de acordo com Carlos Cruz, partner da Deloitte, “a perceção de que estamos num momento de viragem existe também entre os nossos executivos”.

Ainda assim, o facto de o tecido empresarial português ser constituído essencialmente por pequenas e médias empresas, faz com que “a maturidade da generalidade das nossas organizações, relativamente ao desenvolvimento de estratégias de desenvolvimento sustentável, fique aquém daquilo a que assistimos nalgumas outras geografias”, avalia. Isto porque, pela dimensão das empresas, a capacidade de investir e mudar processos acaba por ser “muito mais limitada”, prejudicando o caminho para a transição.

Neste sentido, o mesmo partner da consultora Deloitte acredita que, em Portugal, o Estado deverá ter uma “importância acrescida” como indutor de mudanças.