Francisco Mondragão-Rodrigues: “A agroecologia e a agricultura de precisão vão ser a base do futuro”

Francisco Mondragão-Rodrigues: “A agroecologia e a agricultura de precisão vão ser a base do futuro”

Francisco Mondragão-Rodrigues, também chefe do Departamento de Ciências Agrárias e Veterinárias da Escola Superior Agrária de Elvas (ESAE), do Instituto Politécnico de Portalegre, esteve na criação do primeiro, e único, mestrado de Agricultura Sustentável em Portugal, que funciona ininterruptamente desde 2007/2008. Por isso, fomos falar com ele sobre a agricultura sustentável em Portugal.

Como podemos definir agricultura sustentável?
Há dezenas de definições nos livros académicos e outros… na agricultura, a sustentabilidade também se baseia nos três pilares: económico – uma atividade agrícola só é sustentável se for rentável; ambiental – tem de ser ambientalmente sustentável, e cada vez mais a União Europeia, por exemplo, introduz na Política Agrícola Comum (PAC) parâmetros ambientais no financiamento à agricultura (como o respeito pela biodiversidade, pelas linhas de água, a não poluição, a rotação de culturas). E, ao contrário do que muitas pessoas pensam, os agricultores são amigos do ambiente e não terão qualquer problema em evoluir para uma agricultura cada vez mais sustentável, porque não pode destruir a terra que lhe dá de comer e no futuro aos seus filhos e netos. Muitas vezes contestam algumas medidas e obrigações porque, na maioria dos casos, implicam mais tarefas burocráticas e mais custos.

E o terceiro pilar é a parte social – a agricultura também só pode ser sustentável se for uma atividade socialmente aceite, desenvolvida no território e contribuindo para o emprego nessas zonas que, na sua grande maioria, são de baixa densidade populacional.

Mas há muitos agricultores a contratarem trabalhadores tarefeiros e principalmente estrangeiros…
Sim, há muita dificuldade de encontrar mão de obra, porque os trabalhos no campo são duros: no inverno faz frio e no verão calor. Daí que depois há espaço para as empresas que trazem tailandeses, nepaleses e outros trabalhadores que encontramos muito nas hortícolas, por exemplo. Além disso, vários técnicos e produtores se queixam de que os trabalhadores portugueses são muito instáveis, “vêm três dias e depois faltam, se lhes pagarmos à semana, depois de pagar desaparecem e não podemos ter os trabalhos condicionados por causa destas pessoas”.

Mas há também cada vez mais empresas a contratarem nas suas regiões, apostando em várias culturas para manterem os trabalhadores no ativo durante mais tempo e a preocuparem-se com a responsabilidade social e as condições dos seus trabalhadores, como é o caso do Esporão, mas há muitos outros (como a Fundação Eugénio de Almeida e a Adega Mayor).

Voltando à definição de agricultura sustentável
Em termos legais, só é considerada sustentável a exploração que pratique um dos dois modos de produção que estão referidos na legislação portuguesa: modo de produção biológico e modo de produção integrada. E ambos têm normas definidas e disponíveis no site da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural. Temos também a proteção integrada, que é uma componente da produção integrada, que se baseia em três princípios: não fazer tratamentos por “calendário”; analisar o risco, ou seja só tratar se o prejuízo for superior ao custo do tratamento e só usar luta química em último recurso. Porque atualmente a agricultura tem à sua disposição outros meios de luta – biotécnica, biológica e física.

“Os agricultores são amigos do ambiente e não terão qualquer problema em evoluir para uma agricultura cada vez mais sustentável, porque não pode destruir a terra que lhe dá de comer e no futuro aos seus filhos e netos.”

Mas mesmo sendo de último recurso a luta química também é usada na agricultura biológica…
Sim, certamente. Mas são usados produtos naturais, que não são fabricados pelo Homem, como o cobre ou o enxofre, mas em doses e números de aplicações limitadas. Para depois poderem usar o “selo” de agricultura biológica ou produção integrada os agricultores têm de ser avaliados por uma entidade certificadora independente (que tenha sido reconhecida pelo Ministério da Agricultura), em visitas marcadas e surpresa, avaliando os Cadernos de Campo, que são um registo obrigatório de todas as operações que se fazem na exploração agrícola. No caso das aplicações fitossanitárias fica registado a data, o produto, o aplicador, a quantidade e é apensa a fatura de compra do produto e porque foi aplicado.

Só que a agricultura sustentável vai muito mais além da redução do uso de produtos fitossanitários, não é?
Certamente, era isso que também queria frisar. Agricultura sustentável começa logo no início, na mobilização que deve ser mínima para conservar o solo, por isso se fala também de agricultura de conservação, para conservar os resíduos acima do solo, que protegem o solo da erosão e ao degradar-se aumentam depois o teor de matéria orgânica nesse solo, que é a base da vida no solo e de uma agricultura fértil.

Considera que no caso das culturas arvenses o caminho é a chamada “intensificação sustentável”?
Esse termo aparece cada vez mais e faz algum sentido para essas culturas e para áreas médias ou grandes, porque não deixando de fazer uma agricultura com alguma intensificação cultural, usa a produção integrada, suportando tudo na agricultura de precisão. A este nível, a agricultura sustentável é cada vez mais uma agricultura tecnológica. Cada vez há mais informação: previsões meteorológicas, teor de humidade no solo e de matéria orgânica, imagens de satélite etc., mas isso obriga a que o agricultor tenha também cada vez mais formação ou se rodeie de colaboradores mais especializados para poderem interpretar a tempo e integrar todos esses dados.

Esta situação cria oportunidades para pequenas empresas de consultoria ou para o reforço do papel das Organizações de Produtores para, além do acompanhamento dos trabalhos de campo que já fazem, prestarem também estes serviços aos seus associados.

Por isso, digo que a agroecologia [que privilegia a conservação do solo e o aumento do teor de matéria orgânica] e a agricultura de precisão vão ser a base da agricultura do futuro, porque o entendimento dos ecossistemas silvestres e do seu relacionamento com os sistemas agrários; e a utilização da agricultura de precisão na melhoria do uso dos recursos naturais, dos fatores de produção e na eficiência em geral, vão ser fundamentais para a agricultura do futuro.

E com a tendência global de descida dos preços destas commodities (cereais, etc.), esta informação é fundamental para reduzir o uso dos fatores de produção, mas também da água…
São fundamentais e a eficiência no uso da água é outro fator fulcral na agricultura sustentável. A água vai ser o problema do futuro na agricultura portuguesa, porque temos o melhor clima do mundo para férias mas não é tão favorável assim para a maior parte das culturas: quando faz mais calor e as culturas mais evapotranspiram, ou seja, perdem mais água, não chove e há pouca ou nenhuma água disponível. Onde há água porque foi retida em barragens, faz-se agricultura, mas como cada vez vai chover menos, também aí haverá menos água disponível para a agricultura, uma vez que a prioridade será a água para consumo das populações, além de que grande parte da nossa água vem de Espanha e eles também vão ter dificuldades.

Por isso, agora, e não daqui a 20 anos quando já não houver água, o agricultor tem de regar de forma eficiente, poupando água e custos (da água, e da eletricidade ou gasóleo).

O primeiro mestrado Foi o primeiro mestrado em Agricultura Sustentável que surgiu em Portugal e tem funcionado consecutivamente desde o ano letivo 2007-2008, “uns anos com menos alunos e outros com mais. Este ano tivemos muita procura, talvez porque tanto a sustentabilidade com a agricultura estão na ordem do dia”, considera o coordenador do mestrado, adiantando “e há cada vez mais empresas a procurarem os mestres do nosso curso”.

O plano de estudos sofreu algumas alterações em 2012 “de forma a adaptá-lo às temáticas mais atuais: introduzimos unidades curriculares de Produção Integrada Vegetal e PI Animal; uma unidade de Modo de Produção Biológica e outra de Agroecologia e incluímos a Agricultura de Precisão numa unidade curricular que se chama Inovação Tecnológica, que aborda também outros temas, e temos ainda unidades de Auditoria e Controlo Ambiental”, afirma Francisco Mondragão-Rodrigues. “Temos também unidades de Uso e Conservação de Solo, Rega e Gestão da Água e Gestão Florestal Sustentável.”

O ciclo de estudos encontra-se dividido num curso de especialização constituído por um conjunto de 12 unidades curriculares obrigatórias (um ano letivo) e um estágio/projeto/dissertação (um ano letivo), funcionando em horário pós-laboral à sexta-feira à tarde e ao sábado.

Como a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) vai avaliar o curso em 2021, “estamos a preparar nova atualização dos conteúdos programáticos para refletir de forma mais clara a Agenda 2030 das Nações Unidas, nomeadamente os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), e também as duas estratégias na União Europeia – From Farm to Fork e a Estratégia para a Biodiversidade”, adianta o professor.