Colin Mayer: “Tecnológicas têm um controlo desproporcionado”

Colin Mayer: “Tecnológicas têm um controlo desproporcionado”

O especialista em estudos sobre sustentabilidade reconhece que a política de concorrência não serve para responsabilizar as grandes empresas tecnológicas pelos custos sociais que a sua atividade impõe. Defende que são estas empresas que se devem responsabilizar, diretamente, por resolver os problemas que criam.

Há o risco de as empresas se tornarem mais pragmáticas e de quererem crescer de qualquer forma? Colocar o lucro como objetivo?

Há cada vez mais pressão sobre as empresas para não o fazer. As pressões começaram a aumentar antes da crise, com as instituições a dar cada vez mais atenção a questões para além do lucro, nomeadamente as ambientais e os objetivos de sustentabilidade. Sim, vamos ver algumas empresas a responder de uma forma a que chamo “slash and burn”. Cortar custos, tornar as pessoas redundantes, reduzir salários, evitar quaisquer despesas com os empregados ou com a sociedade, ou o ambiente. Mas para a maior parte isso vai-se tornar cada vez mais inaceitável.

As grandes empresas tecnológicas estão a tornar-se vencedoras desta crise. A tecnologia torna o mundo mais, ou menos, sustentável?

Ambos. Fazer esta entrevista sem viajar centenas de milhas mostra como a tecnologia ajuda a comunicar de uma forma que era inconcebível apenas há uns anos. É por isso que algumas empresas destas estão a sair-se tão bem, as empresas de tecnologia claramente estiveram à altura do desafio e demonstraram que podem providenciar este tipo de comunicação a uma escala de massas. Em grande medida o avanço tecnológico resolve problemas. Mas também pode criar.

Por exemplo?

No que diz respeito à inteligência artificial, tende potencialmente a substituir humanos por máquinas. A inteligência artificial tem um potencial tremendo para melhorar as nossas vidas, mas é extremamente importante que a forma como é implementada não crie problemas massivos pelo caminho. Uma das formas de atravessar esta crise seria dizer: se os humanos são tão vulneráveis a crises pandémicas, é melhor livrarmo-nos deles e substituí-los por máquinas. Não é a forma certa de abordar a questão. As pessoas não se tornam redundantes, temos de reconhecer os seus novos papéis, que podem desempenhar ao lado das máquinas.

Um dos objetivos da Google é partilhar informação entre pessoas que estão distantes. Faz isto muito bem, mas também cria problemas: dificulta a distinção da informação credível. Como é que se convence as grandes empresas a pagar os custos que criam?

É uma boa ilustração de como a forma como recompensamos as empresas muitas vezes distorce as suas decisões. A Amazon é outro bom exemplo: deu um grande contributo às nossas vidas, mas muitas vezes impõe custos sérios. Também o entretenimento da Netflix está a pôr em causa os cinemas. Uma resposta seria deixar o mercado atuar, são escolhas dos consumidores, sobre como querem ir às compras ou ser entretidos. Não devia ser uma preocupação da Google, da Amazon ou da Netflix. E há um elemento de verdade nisto. Mas, ao mesmo tempo, definir um objetivo apropriado para as empresas implica reconhecer que há uma responsabilidade que vem com as consequências do que fazem.

Como?

Google, Amazon, Netflix, devem pensar sobre como trabalhar com os governos ou as organizações locais para no final ter um benefício líquido. Os negócios existentes não têm necessariamente de continuar, mas temos de assegurar que não deixamos cidades-fantasmas para trás. Isto também traria oportunidades de negócio.

Estas empresas têm demasiado poder?

Conseguem impor um controlo desproporcionado sobre as nossas vidas. A solução seria utilizar a regulação. Isso claramente está a falhar, em parte porque são organizações internacionais e podem mudar os seus negócios para onde quiserem, para mercados menos regulados. E também porque estes problemas não são solucionáveis através da política de concorrência. As ferramentas tradicionais neste caso não são adequadas. Isto coloca a responsabilidade nestas empresas de reconhecer que é parte do seu objetivo resolver estes problemas.

“As empresas de tecnologia estiveram claramente à altura do desafio.”
“A estratégia de ‘cortar e queimar’ vai-se tornar inaceitável para as empresas.”