Portugal tem de reciclar 55% do lixo em 2025

Portugal tem de reciclar 55% do lixo em 2025

Quando chegar a 2025, Portugal deverá estar já a reciclar pelo menos 55% dos seus resíduos urbanos, uma percentagem que deve aumentar para 60% até 2030 e para 65% até 2035. São estas as metas comunitárias, devidamente aprovadas pelos Estados-membros, mas por cá há ainda um caminho significativo a percorrer. Segundo os últimos dados disponíveis no Eurostat, o organismo das estatísticas europeu, em 2018 Portugal reciclava apenas 28,9% dos resíduos urbanos, longe da média da Europa a 28, que estava nos 47%.

Não há dados oficiais para 2019, mas Rui Berkemeier, da associação ambientalista Zero, acredita que não haverá grande diferença. Aliás, a Zero contesta mesmo os números do Ministério do Ambiente, que diz não corresponderem à realidade, que estará, afinal, bem abaixo. No caso das embalagens, por exemplo, enquanto o Governo anunciou, em fevereiro último, que a taxa de reciclagem atingiu 44,3% (foram recicladas 72.360 toneladas de um total de 163.039 toneladas declaradas no mercado), a Zero estima que a mesma taxa estará nos 12% e recorre a dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para fazer os seus cálculos.

Em relação às embalagens, refira-se, foi fixado pela Comissão Europeia um objetivo global de 65% até 2025 e de 70% até 2030. Mas chegar lá, pode ser complicado. “Ou mudamos o paradigma, ou não vamos a lado nenhum”, considera Rui Berkemeier. E de que forma? A Zero defende que é preciso apostar em várias frentes, como a recolha seletiva, em que o que faz sentido é cada vez mais o porta a porta e menos os tradicionais ecopontos. Ou a recolha de resíduos orgânicos, que hoje em dia vão quase todos para aterro. Ou, ainda, garantir que todas as embalagens pagam mesmo o ecovalor. A Zero fez um estudo que recentemente encaminhou ao Governo, de acordo com o qual o setor da reciclagem tem potencial para gerar cinco mil novos postos de trabalho. “Assim se invista nele”, desabafa Rui Berkemeier.

Isabel Cortes, gestora de Marketing e Comunicação da Sociedade Ponto Verde, fala num crescimento de 10% na reciclagem e sublinha que “temos vindo sempre a crescer”, o que mostra que há “um envolvimento cada vez maior das pessoas”. Mas reconhece que “há uma série de desafios que temos pela frente” e que há setores nos quais é preciso fazer mais como o da hotelaria e restauração – o chamado canal Horeca – ou os eventos fora de casa. “Parte muito da iniciativa individual de cada um, de um melhor serviço disponibilizado ao cidadão para fazer essa separação, é, em suma, toda uma cadeia de valor que tem de se interligar”, sublinha.

Também Ricardo Neto, presidente da Novo Verde, acredita que a meta será atingida, desde logo porque “os consumidores estão hoje muito mais bem informados sobre o destino a dar aos seus resíduos”. Mas fala também nos desafios a enfrentar e considera que “a recolha seletiva de resíduos orgânicos é o maior que o país enfrenta”.

Para já, há novas formas de recuperação de embalagens em marcha, como o projeto-piloto “do velho se faz novo” ou o sistema de depósito, previsto para 2022 e que, sublinha Ricardo Neto, “será fundamental”. E a crise provocada pela pandemia, será um fator de atraso? Teresa Cortes não quer fazer futurologia, mas salienta que, nestes tempos de recolhimento em casa, os portugueses não reduziram os níveis de reciclagem, mantendo-se mesmo “uma estabilidade”. Ricardo Neto também tem a mesma perceção: a recolha seletiva, diz, cresceu 15% até abril relativamente ao período homólogo do ano passado, pelo que “podemos inferir que com o confinamento aumentaram os hábitos de deposição seletiva de resíduos de embalagem”.

44,3%

reciclagem
Taxa de reciclagem em Portugal de acordo com dados de fevereiro. A associação Zero estima que será de apenas 12%.
65%

embalagens
Taxa de reciclagem para as embalagens com que o Governo se comprometeu para 2025.