Colin Mayer: O capitalismo “vai certamente mudar”

Colin Mayer: O capitalismo “vai certamente mudar”

Acredita que a União Europeia vai encontrar uma forma de evitar mais fragmentação – seja dentro de cada país, seja entre Estados-membros – e que vai usar a crise para crescer mais sustentadamente?

Sim. Essa é precisamente a questão que a UE enfrenta. São questões fundamentalmente políticas e sociais sobre em que medida é possível promover crescimento inclusivo dentro da Europa, e reconhecer as divergências consideráveis entre regiões. Mas a UE enfrenta uma crise existencial e, se não resolver este problema, o seu propósito será muito pouco claro e a razão para a tentar manter vai começar a evaporar-se. Há o risco real de fragmentação ou de rutura, a menos que consiga mostrar o seu verdadeiro benefício na crise atual. Temos visto nos últimos dias entre França e a Alemanha um movimento lento para abordar este problema e trazer uma resposta mais clara e ambiciosa. Se outros países se vão juntar à proposta temos de esperar para ver.

Os países terão de gastar muito dinheiro para sair da crise. Como é que isso se paga sem comprometer o tecido político e económico?

Pode ser feito de uma forma muito simples: as empresas estão a ser resgatadas essencialmente com empréstimos. O problema desta estratégia é que vai deixar muitas empresas falidas. A forma de resolver a questão é converter essa dívida massiva em capital – há veículos para isso.

Como é que os governos recuperam o dinheiro?

Através dos lucros no capital. É uma forma muito poderosa de os governos serem pagos. Mas não queremos simplesmente passar uma parte muito significativa do setor privado para a posse do Estado. Para evitar esse problema, entre o Estado e a empresa temos de colocar intermediários privados, que gerem os fundos. Não queremos os governos a gerir estes fundos diretamente, mas queremos alguma coisa como veículos de capitais privados ou de dívida. Dessa forma promovemos o desenvolvimento do mercado de capitais privados como forma de reestruturação da dívida em capital.

Esta crise vai trazer uma forma de capitalismo diferente?

Vai certamente mudar. E temos claramente um caso em que pudemos constatar a importância dos Estados nos últimos meses. Mas não vai mudar só porque os Estados vão ficar com mais poder, vai mudar porque vamos reconhecer um papel diferente tanto para o Estado, como para o setor privado. E vamos reconhecer que a distinção anterior muito clara entre os dois não é, genericamente, muito apropriada. As empresas têm de desempenhar uma função mais social em termos ambientais para resolver os problemas, e ao mesmo tempo o Governo tem de reconhecer a necessidade de apoiar os negócios. Uma das grandes mudanças será a importância de termos parcerias verdadeiras e eficazes entre o setor público e o privado e que há formas de o fazer de modo muito mais eficiente no futuro.