Dar nova vida ao desperdício

Dar nova vida ao desperdício

O objetivo é travar o uso de recursos finitos e imitar a natureza, onde "nada se perde e nada se cria, tudo se transforma" (Lavoisier). Com este conceito em mente, tem vindo a aumentar o número de empresas, principalmente start-ups mas não só, que procuram aproveitar o desperdício de indústrias à sua volta para criarem novos produtos, eles também recicláveis. São já conhecidos os ténis feitos com plástico retirado do Oceano (como a Zouri ou a Skizo), ou as botas recicláveis da Lemon Jelly, mas há muitos exemplos empreendedores que estão a trabalhar para dar novos usos ao desperdício.

É o caso da Plasblock, da TailoredTile, da Spawnfoam e da Jinja, entre muitos outros. O facto de a sustentabilidade estar “na moda”, de haver por isso procura para este tipo de produto, também ajuda à sua proliferação. E, como vamos ver, há potencial para a criação a partir do desperdício em áreas tão diferentes como Logística, Arquitetura e Design, bem como a Decoração e o Home & Garden.

Dos tacos ao “azulejo”

Miguel Ferreira, de uma empresa familiar de cerâmica da zona de Leiria, explica que “a Plasblock surgiu a partir da nossa paixão de encontrar oportunidades nos recursos físicos que se encontram desaproveitados”.

A Plasblock produz tacos para paletes de madeira 100% compostos de desperdícios poliméricos mistos e de biomassas poliméricas, e que são também eles recicláveis, podendo ser devolvidos à empresa “no final de seu ciclo de vida para serem transformados em novos blocos”, salienta o empreendedor.

Num “mundo” bem diferente, a arquiteta Ana Rita Rodrigues conta que “o projeto TailoredTile começou em 2018 (…) em parceria com o Bruno Campos, que trabalha na produção de peças plásticas para a indústria automóvel, é formado em química e partilhava comigo o desejo de fazer algo em relação aos desperdícios dessa mesma indústria”.

Assim, “aliámos o meu conhecimento em arquitetura e a vontade de criar algo modular, semelhante ao tão tradicional azulejo de cerâmica, ao conhecimento dele de fabricação e produção de peças plásticas. Criámos o Tilegram, uma peça com dimensões semelhantes ao azulejo de cerâmica e que cria um efeito tridimensional nas paredes, através de margens de alturas diferentes. Os nossos tilegrams podem suportar desenhos ou outras informações, tornando-se bastante versáteis”.

Dos biomateriais à decoração

A Spawnfoam é uma empresa “que contribui para a sustentabilidade ambiental, enquanto reduz a poluição por plástico na água e terrenos agrícolas. (…) Desenvolvemos um novo material biocompósito que consiste na junção de subprodutos orgânicos e agroflorestais com um adesivo orgânico, cuja primeira aplicação comercial são vasos de plantas que são ecologicamente sustentáveis, personalizáveis e fáceis de utilizar”, descreve o CEO, Pedro Mendes, adiantando: “Os vasos da Spawnfoam são uma solução verdadeiramente única, totalmente orgânica, biodegradável e de compostagem doméstica.”

De uma forma diferente, mas até com produtos finais idênticos, como vasos, a designer Norma Silva diz-nos que “a Jinja é uma marca portuguesa de produtos para casa, feitos inteiramente à mão a partir de desperdício têxtil. A base do projeto foi chamar a atenção para o desperdício que a indústria produz e para o facto de esse material ainda ter valor e poder ser reutilizado para a produção de novos produtos e não consumindo assim mais recursos da natureza”. Por isso, acrescenta Norma Silva, “tento que todos os materiais, mesmo os que foram adicionados posteriormente em novos produtos, como a madeira, sejam sempre reutilizados”.

Preservar recursos também a jusante

Destes projetos, a Plasblock tem o maior volume de produção, com cinco modelos diferentes, “desenvolvidos de acordo com as exigências e em parceria com os nossos principais clientes”. Falamos de empresas de fabricação de paletes de madeira para logística “que encontraram no nosso taco uma alternativa de melhor desempenho e durabilidade face às opções existentes no mercado, permitindo não só conferir uma maior qualidade às suas paletes, mas também conseguirem produzir mais paletes com o mesmo volume de madeira”.

Miguel Ferreira explica que “os tacos são compostos principalmente por desperdícios de plásticos mistos, cuja reciclagem por meios convencionais é praticamente impossível, tendo como o destino mais óbvio a queima ou o aterro, (…) [assim] já nos foi possível dar nova vida e refuncionalizar a mais de um milhão de quilos de desperdícios poliméricos”.

A Plasblock começou por vender apenas em Portugal “mas no ano de 2020 tivemos um boom na procura”, sendo que Espanha representa agora cerca de 70% do volume de faturação, a que se somam cerca de 8% para outros países europeus, como Inglaterra e Grécia.

O responsável adianta que há outros produtos em desenvolvimento: “Já testámos com sucesso produtos prensados para as áreas da construção civil e habitação bem como perfis com vários formatos, que poderão entrar para o mercado ainda durante este ano”, e especifica que “este tipo de material proveniente de plásticos mistos reaproveitados tem um potencial enorme dado que é resistente a fungos, não apodrece e é facilmente maquinável e trabalhado como a madeira”.

“O nosso produto é efetivamente uma arma contra a desflorestação. Funciona como alternativa de blocos de madeira em paletes, e reduz a pressão sobre os recursos naturais lenhosos. A cada 10.000 paletes confecionadas com os nossos blocos, é possível atingir 275.000 kg de preservação florestal e 110.000 kg de desperdícios poliméricos recuperados contribuindo para uma quantidade de CO2 absorvida pela floresta preservada de 379.999 kg”, sublinha Miguel Ferreira.

Biocompósitos: potencial infinito de aplicação

O CEO da Spawnfoam relata que os biocompósitos são personalizáveis, frisando que “as suas possíveis aplicações são infinitas, no entanto, o nosso compromisso atual envolve a produção e a comercialização de embalagens e vasos”, mas refere: “O segmento dos painéis de construção tem demonstrado interesse da indústria nacional, mas ainda estamos a procurar um primeiro cliente para testar o conceito de painéis de construção para isolamento térmico e acústico.”

Pedro Mendes adianta que “a Spawnfoam está a preparar o lançamento de uma nova coleção de vasos designada BoxPot em parceria com o produtor nacional Sementes Vivas de origem orgânica. Esta coleção vai ter três gamas, ervas aromáticas, flores comestíveis e plantas hortícolas. (…) O BoxPot tem o selo ‘Portugal Sou Eu’, vai ser lançado no início de fevereiro e já estamos a aceitar as primeiras encomendas”.

Para o objetivo de 10.000 vasos do kit BoxPot podemos contabilizar cerca de 2.000 kg de resíduos/subprodutos da agricultura e floresta valorizados Pedro Mendes
Spawnfoam

O responsável diz que o objetivo “para o lançamento é vender mais de 10.000 unidades do kit BoxPot em toda a Europa (…) mas queremos vender global e para isso estamos a definir uma estratégia de promoção digital na qual é expectável lançar a loja online já no início do mês de fevereiro”.

Relativamente à quantidade de resíduos já reciclados, o CEO da Spawnfoam admite que “não temos esse valor contabilizado. No entanto, para o objetivo de 10.000 vasos do kit BoxPot podemos contabilizar cerca de 2.000 kg de resíduos/subprodutos da agricultura e floresta valorizados”.

Design sustentável

No caso da TailoredTile e da Jinja, as produções são em menor escala, principalmente da Jinja que é completamente artesanal. Ana Rita Rodrigues, da TailoredTile, afirma: “O nosso produto alcança um maior público através da customização. Desenvolvemos um serviço personalizado onde os clientes enviam uma fotografia e criamos aguarelas através das mesmas” e adianta que há também empresas e outras entidades que “recorrem aos nossos Tilegrams para impressão do logótipo ou para decorações customizadas”.

A arquiteta frisa que “a economia circular é um dos objetivos a que a TailoredTile se propõe sendo que, as embalagens, os embrulhos em papel e cordel e as instruções são produzidas também em materiais reciclados”, a responsável do projeto acrescenta que, “até ao momento, recuperamos cerca de 700 kg de plástico. (…) Situação pandémica desacelerou o crescimento da empresa, que poderia, através de trabalhos cancelados ou adiados, já ter recuperado duas toneladas de plástico”.

Também Norma Silva, da Jinja, nos diz que “a escolha de todos os materiais é sempre feita pensando na sustentabilidade e o seu impacto no meio ambiente, mas também na qualidade do produto, para que este seja durável. Quer a cola e o verniz também utilizado são de base aquosa e o verniz tem o selo Ecolabel”.

Norma Silva – que é membro fundador da Associação Between Parallels, que foi criada no início de 2020, “com o objetivo de desenvolver e promover o design sustentável em Portugal – explica que “a produção da Jinja é de pequenas séries, toda feita à mão e sempre em coleções limitadas de cores, também devido ao tipo de produto utilizado. Muitas das cores dos fios quando terminam, não consigo encontrar novamente iguais”.