Miguel Eiras Antunes: “Nós devíamos ser a nação inteligente e sustentável da Europa”

Miguel Eiras Antunes: “Nós devíamos ser a nação inteligente e sustentável da Europa”

As cidades inteligentes, ou smart cities, em inglês, levaram um "empurrão" com a pandemia de covid-19, afirma Miguel Eiras Antunes, partner na Deloitte em Portugal e líder global de Smart City, Smart Nation e Local Government. Contudo, há que manter o ritmo, defende. Isto se Portugal quiser agarrar a "oportunidade" de se tornar uma referência europeia ou até global no que diz respeito às smart cities, criando uma rede que permita ao país assumir o papel de "nação sustentável e inteligente".

Hoje em dia, o que pode ser considerado uma cidade inteligente? E de que forma é que são relevantes?
Uma cidade inteligente trabalha de forma integrada nos diversos domínios da cidade e usa tecnologia e inovação com três objetivos: melhorar a qualidade de vida – sustentabilidade social, aumentar o valor económico gerado naquela comunidade, logo sustentabilidade económica, e para melhorar a sustentabilidade ambiental. É importante notar que 50% das pessoas vivem hoje em cidades e, dentro de 10 a 30 anos, vão ser 70%. Depois, 80% do PIB global é gerado em cidades e aquelas que investiram em tecnologia aplicada desenvolveram o PIB 2,8 pontos percentuais acima das outras. Por fim, e mais importante hoje em dia: 75% das emissões de carbono são oriundas de cidades. Se queremos garantir que temos sustentabilidade ambiental, é impossível fazê-lo sem ser no contexto das cidades. Através de tecnologia, nós conseguimos cortar 90% destes 75%, logo podemos resolver mais de 50% do problema ambiental da humanidade. No final, se fizermos uma correlação entre os índices das cidades inteligentes, da qualidade de vida e da felicidade das pessoas, há uma correlação direta.

Mas existem verdadeiras smart cities? Em Portugal há bons exemplos?
Uma smart city é um processo contínuo. Diria que não existe nenhuma smart city totalmente integrada, com todas as características… até porque as cidades são muito diferentes umas das outras e a tecnologia tem vindo a evoluir. Mas há excelentes exemplos em Portugal, como é o caso de Viseu, Cascais, Porto, Lisboa e várias outras que estão a fazer coisas consideradas como referências lá fora. Ainda assim, se cinco autarquias trabalharem bem e as outras não, o que vai acontecer é que não vamos atingir objetivos de sustentabilidade nenhuns. Nesse sentido, é essencial haver uma política e uma estratégia integrada para as cidades inteligentes a nível nacional.

“Se cinco autarquias trabalharem bem e as outras não, não vamos atingir objetivos de sustentabilidade nenhuns.”

“Há uma oportunidade muito grande que nós temos agora.”
Miguel Eiras Antunes

Há essa disponibilidade e vontade da parte dos poderes políticos?
Não há uma entidade que esteja preocupada em definir uma estratégia integrada para as cidades inteligentes em Portugal e é importante que seja feito. Há uma oportunidade muito grande que nós temos agora. Lisboa é a Capital Verde Europeia; Portugal vai ter a presidência da Comissão Europeia em janeiro e existe o contexto do Green Deal. Vão ser redirecionados imensos fundos especificamente para o tema da sustentabilidade ambiental. Nós devíamos ser a nação inteligente e sustentável da Europa. É uma imagem excecional para o mundo e fácil. Fácil mesmo. Acho que isto politicamente é interessantíssimo, mas também economicamente e do ponto de vista social e ambiental, por isso todos ganham.

E as smart cities têm pernas para andar, tendo em conta os recursos que há disponíveis, por exemplo a nível financeiro?
Sim, se se apostar muito mais nas parcerias público-privadas. Ou se definem políticas e medidas para envolver o setor privado de forma muito mais ágil ou penso que não vamos atingir os objetivos de sustentabilidade. Durante a pandemia de covid-19 conseguiu-se fazer esta ponte.

A pandemia serviu como catalisador?
Coisas que no passado demoravam anos a ser feitas, neste momento, por necessidade, foi possível implementar de forma muito rápida, muitas vezes em semanas ou um mês. As Covid War Rooms, que são salas onde se faz a monitorização e projeção dos casos, foram implementadas em cerca de uma semana ou 15 dias. Há ainda o exemplo do teletrabalho, mas também do ensino à distância e até a transformação digital do setor público.

No cenário de nova normalidade, as soluções de hoje vão manter-se relevantes ou podemos abrandar um pouco?
O que aconteceu neste período foi uma diferente gestão de prioridades. Diria que as coisas se vão manter mas que a cidade irá variar à medida que a pandemia se vai resolvendo.

Há alguma disrupção que esteja à espreita no curto a médio prazo, que seja a próxima alavanca da evolução das smart cities?
Eu diria que a principal alavanca agora foi a covid-19. Daqui a um ano a prioridade vai ser a sustentabilidade ambiental. Vai ser completamente disruptivo. Porque ou se atua e se implementam medidas muito ligadas à tecnologia no contexto das cidades ou não se vão conseguir atingir os objetivos de sustentabilidade ambiental.

Quais são agora as áreas prioritárias?
Há uma área que contribui muito para a sustentabilidade ambiental: os transportes e mobilidade. Mas também há toda a questão dos edifícios residenciais e comercias, da eficiência nos aquecimentos e da descarbonização da eletricidade. É essencial atuar nestas vertentes para cortar as emissões. Os resultados ainda não estão todos à vista, mas várias coisas têm vindo a ser feitas e eu acredito que estes resultados vão ser facilmente visíveis para o cidadão a muito curto prazo.